Poética da Relação

 O texto "Poética da Relação" de Édouard Glissant aborda o tema das relações e do campo indizível dos encontros em seu caráter trágico. Nessa compreensão, a busca por legitimidade da posse de um território leva populações a desenvolverem seus particularismos, engendrando uma tendência generalizadora a partir da qual uma visão simplificada do Outro coloca uma oposição identitária: “nós” x “eles” prejudicial à experiência da errância e da totalidade do ser.

O texto foi dividido em duas partes: a primeira, intitulada "A barca aberta", com sua linguagem poética, convida o leitor a experiência do desconhecido metaforizada na imagem dos navios tumbeiros que levavam pessoas escravizadas da África para a América. O autor descreve o abismo como projeção e perspectiva do desconhecido, comparando com a barca aberta e a imensidão do mar para trazer a imagem de tudo que foi abandonado, os deuses, os animais, os objetos do cotidiano. Na medida em que esse abismo é esquecido, o desconhecido vira conhecido e a memória é consolidada, seria possível viver uma relação enquanto conhecimento compartilhado sobre o todo, incrementado pela experiência do abismo.

A segunda parte do texto, intitulada "A errância, o exílio" traz a questão da raiz como faltante em ambos os casos. A ideia de raiz enquanto rizoma é trazida para ilustrar uma forma de ver a proveniência que não se configura de forma fixa ou teleológica, mas que emerge no prolongamento da identidade enquanto relação com o outro, uma espécie de anticonformismo diante das tendências universais e generalizantes da identidade, do território, da instituição da lei. Embora a desterritorialização seja apontada como necessária para a realização do ser, a crítica de que o particular resiste ao universal para gerar seus próprios particularismos encontra na possibilidade da errância uma poética da relação que funde as razões de viver em uma forma moderna do sagrado. Esse sagrado, antes de ser um aprofundamento na origem, passa a ser compreendido como jamais revelado, a partir da priorização do movimento e não da raiz.

O texto aborda a relação de disparidade de poder no pensamento dual que levou ao estabelecimento de relações de conquista, que obrigou os povos conquistados a afirmar sua identidade como necessidade de oposição ao ocupador. Apesar de ser caracterizado como a vivência de contrariar a raiz, a errância não provém de uma renúncia ou de uma frustração com uma relação de origem deteriorada, mas de uma busca pelo outro a partir da qual pode ser vivida de forma mais plena a realização do ser.

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