Notas para uma psicologia preta
O texto Descolonizando a Psicologia: Notas para uma psicologia preta de Lucas Veiga tem o objetivo de reconfigurar as práticas psicológicas na clínica com pessoas negras. Criticando os referenciais exclusivamente brancos e europeus que estruturam os currículos de psicologia atuais, Veiga propõe um refundamento da clínica psicológica a partir de autores e autoras negros e negras. Ao afirmar que existem territórios subjetivos da negritude que pessoas brancas não são capazes de suportar, o autor defende não apenas a reformulação dos currículos de psicologia e a crítica epistemológica à branquitude, mas o encontro entre pessoas negras como estratégia de aquilombamento e de cura das mazelas do racismo e da escravidão. Veiga introduz a necessidade da psicologia de estar sensível ao contexto social, criticando a psicanálise freudiana por dar pouco ouvidos à responsabilidade do “mundo” na estruturação dos sintomas individuais. Em sua conceituação do racismo, da colonialidade e da escravidão como traços fundantes da subjetividade de pessoas negras, o autor aponta que a psicologia brasileira oferece ferramentas próprias ao manejo das subjetividades brancas, sendo ineficiente em oferecer cuidado adequado quanto a pessoas negras. A própria desvalidação dos saberes produzidos pelos autores negros citados no texto é produto do sistema que elege o branco como critério de referência, verdade e bondade. Diante da visualização da marca do desejo no corpo do outro, pessoas negras experimentam afetos de culpa e auto-ódio na medida em que não conseguem se referenciar em si mesmas. Para o autor, o aquilombamento é essencial como estratégia de resistência e criação decolonial. Através dos conceitos de pulsão palmarina e de ritmo a partir dos quais pessoas negras se conectam entre si, ligadas pelo desejo de africanidade, liberdade e da conexão com o todo cósmico, o autor propõe uma compreensão de subjetividade negra para fundar sua crítica à inadequação das teorias brancas diante das práticas de cuidado com pessoas negras. Veiga cita o filme Praça Paris como exemplo em que uma psicóloga branca e portuguesa é incapaz de atender uma pessoa negra, criticando inclusive a direção branca do filme por estar mais sensível às dores da personagem branca. Sendo o auto-amor através do aquilombamento fundamental para o processo de cura de pessoas negras, as perguntas que Veiga deixa aos psicólogos e psicólogas brancas que o lêem é: pode o amor próprio ser despertado por alguém sem condições de acessar os traços fundantes de outra pessoa - ou que ainda representa para ela a violência da qual ela busca se livrar?
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