Escuta transfeminista
O texto de Sofia Favero, Marine Marini e Ariane Senna "Uma teoria psicológica transfeminista: sobrevivendo aos escombros da saúde mental brasileira" publicado em 2023 foi escrito em um contexto político do final do governo Bolsonaro, enquanto a disputa em torno da chamada ideologia de gênero tinha grande destaque nas reivindicações dos setores sociais em oposição. Não à toa, a introdução do artigo aborda a suposta neutralidade da ciência psicológica considerando as reflexões historicamente trazidas pelos movimentos feministas. Embora teçam suas críticas à adjetivação das práticas em psicologia, as autoras lançam mão de autores e autoras trans/do feminismo para traçar um paralelo entre a cisnormatividade e a clínica, defendendo uma escuta transfeminista como caminho para a despatologização das diversidades sexuais e de gênero.
Com o objetivo de situar a cisgeneridade mais como uma norma do que como uma identidade ou identificação, o artigo cita Viviane Vergueiro para definir os alicerces da cisnormatividade: a pré-discursividade, a binariedade e a permanência. De acordo com Vergueiro, haveria uma compreensão subjacente de que o sistema sexo/gênero seria dimórfico, ou seja, composto “essencialmente” pelo par opositivo masculino/feminino capaz de definir características constantes dos indivíduos ao longo do tempo, tal como temperamento, desejo e papel social. Essa definição, fundamentada tanto em uma determinada produção científica quanto em certas interpretações de textos religiosos, seria responsável por alocar à cisgeneridade o rótulo de “destino saudável do eu”, relegando àqueles que divergem das normas à marginalidade social. A partir daí, as autoras apontam os questionamentos do movimento feminista como ferramentas para desestabilizar postulados hegemônicos que reproduzem hierarquias.
Diante do contexto brasileiro em que as demandas de pessoas trans, gays e lésbicas são levadas para o consultório psicológico e não para as grades curriculares dos cursos de graduação e especialização, Favero, Marini e Senna apontam para a necessidade da construção de “outra” ciência. Segundo as autoras, definir a construção do conhecimento a partir de ideais cisgêneros sempre submeteria as diversidades sexuais e de gênero à posição de erro, desvio ou doença.
O artigo aborda a apropriação das demandas da população trans por parte da medicina e do direito, apontando diferentes compreensões desses campos sobre a cirurgia de transgenitalização. A problemática associada aos procedimentos hoje garantidos pelo SUS envolve definições de corpo, mutilação, desejo e prazer que não encontram consenso ao longo do tempo e em grupos de profissionais diferentes. Ainda, a tutela médico-legal diante dos procedimentos a que se submetem pessoas trans não encontra nas modificações corporais de pessoas cis a mesma restrição e burocratização. Entende-se que essa diferença está associada à compreensão da transgeneridade como patologia, fruto da cisnorma inquestionada. Nesse sentido, o conhecimento sobre as transidentidades precisaria ser mais fundamentado nas produções de pessoas trans, pois isso asseguraria uma mudança nos manuais e categorias nosológicas, tornando a diversidade das existências mais possível enquanto singularidade.
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